Nosso blog dizia 7 minutosde leitura. Era 1.
Rodamos no nosso próprio site a auditoria que fazemos nos outros. O erro estava em 26 dos 30 posts, e fazia o cronômetro da tela contar errado. Conta inteira, com números.

Nosso blog dizia 7 minutos de leitura. Era 1.
A auditoria que a gente faz nos outros, rodada em casa.
A gente publica sobre auditar o site dos outros. Sobre número que ninguém confere, informação vencida no ar, texto que a IA gerou e ninguém revisou.
Então essa parte é justa: rodamos a auditoria no nosso próprio blog e o erro estava nos 30 posts. Em todos.
Não é grave no sentido de causar prejuízo. Ninguém perdeu dinheiro. Mas é exatamente o tipo de erro sobre o qual a gente escreve — um número digitado à mão, que parecia certo, que ninguém recalculou, e que ficou no ar meses dizendo uma coisa que não era verdade.
Vale contar inteiro, com os números. Contar pela metade seria o mesmo defeito outra vez.
A tese, em uma frase
O que estava errado
Todo post do blog tem um campo de tempo de leitura. É aquele “7 min” que aparece embaixo do título, ao lado da data.
Nos 11 posts da série Radar, esse campo dizia 7 min.
O texto real desses posts tinha entre 155 e 225 palavras.
A 200 palavras por minuto — média conservadora para leitura em português, e a mesma constante que o nosso código usa — 200 palavras levam cerca de 1 minuto. Não 7.
O erro não era de arredondamento. Era de sete vezes.
E não estava só no Radar. Ao medir os 30 posts publicados, os 30 estavam errados por 2 minutos ou mais. Nenhum acertou. O que chegou mais perto foi o post mais longo do blog: declarava 12 minutos e media 10.
Todos erravam para o mesmo lado — para cima. Nenhum post subestimava o próprio tamanho.
Por que o erro passou
A explicação é chata, e é justamente por isso que vale registrar: o número era digitado à mão.
Quem criava o post estimava o tempo de leitura e escrevia. Na hora, a estimativa era um chute razoável — quem escrevia tinha na cabeça o post que pretendia fazer, não o que acabou saindo. Depois o texto encurtou, ou nunca chegou no tamanho planejado, e o número ficou.
Repare no que não aconteceu: ninguém mentiu, ninguém foi descuidado, ninguém tomou uma decisão errada. O campo simplesmente não pertencia a ninguém. Não existia etapa chamada “conferir o tempo de leitura”, então nunca existiu o momento em que alguém olharia aquilo de novo.
É o mesmo padrão que descrevemos no post sobre IA sem revisão: o problema não é falta de cuidado, é ausência de dono. Número sem dono envelhece sozinho.
O erro tinha uma segunda vítima
Aqui deixa de ser um detalhe de metadado.
O blog tem um cronômetro na tela: um anel em volta do olho da nossa marca, que vai se esvaziando conforme você desce a página, como a barrinha de uma story. Ele existe pra dar noção de quanto falta.
Esse anel lê o campo de tempo de leitura. Então, num post que declarava 7 minutos e tinha 45 segundos de texto, o anel se programava pra gastar sete minutos. Quem terminava de ler chegava no fim da página com o cronômetro ainda no começo.
O componente estava certo. A conta dele estava certa. O dado que ele recebia é que estava mentindo — e o resultado é que a peça mais visível do blog, construída justamente pra criar sensação de ritmo, comunicava o contrário do que estava acontecendo.
Erro em número raramente fica contido no número. Ele vaza pra tudo que se apoia nele.
O que a gente fez
Três coisas, em ordem — e a segunda eu não esperava.
Primeiro, medimos. Escrevemos um script que abre cada post, extrai só o texto que o leitor de fato lê — título de seção, parágrafo, item de lista, caixa de destaque, legenda — e ignora caminho de imagem, nome de variante e código. Aí compara com o número declarado.
Depois, descobrimos que o script também estava errado. Na primeira versão ele contava duas vezes o mesmo parágrafo, nos casos em que o formatador de código tinha quebrado a linha entre o nome do campo e o texto. O total inflava em quase 100% — e só nos arquivos mais novos, que eram justamente os que eu estava escrevendo naquele dia.
O que salvou foi um número implausível: um post que eu tinha acabado de escrever, com mais ou menos 1.100 palavras, apareceu com 2.100. Se o erro fosse de 10%, teria passado direto.
Por último, corrigimos com régua. Todo post com diferença de 2 minutos ou mais foi ajustado. A régua existe porque um texto de 1.400 palavras que diz 8 minutos e mede 7 está arredondando, não mentindo, e mexer nele só sujaria o histórico. Nenhum dos 30 estava dentro dela.
E três posts cresceram: os que tinham tema pra sustentar um artigo foram de ~200 para mais de 1.000 palavras. Aí o tempo declarado voltou a ser verdade porque o texto mudou — não porque o número mudou.
O script ficou no repositório. Agora dá pra rodar antes de publicar.
O que a auditoria devolveu
- 130 posts medidos.
- 230 fora da régua de 2 minutos. Nenhum acertou.
- 311 posts do Radar declaravam 7 min e tinham entre 155 e 225 palavras.
- 4O post mais longo chegou mais perto: dizia 12 min e media 10. E ainda errou.
- 5Todos erravam para cima. Nenhum subestimava.
- 63 posts cresceram de ~200 para mais de 1.000 palavras.
- 71 bug encontrado no próprio script de auditoria, antes de confiar nele.
Onde esse argumento para de valer
Três ressalvas honestas.
Tempo de leitura é estimativa, não medida. 200 palavras por minuto é uma média que não descreve ninguém com exatidão: quem lê rápido faz na metade, quem está no celular dentro do ônibus faz no dobro. Precisão nunca foi o ponto. O ponto é não errar por sete vezes.
A ferramenta que mede também erra. Errou aqui, na primeira versão, e o que salvou foi um número absurdo o bastante pra chamar atenção. Auditoria não elimina erro — troca um erro invisível por um erro que alguém pode ver. É melhor, e não é garantia.
E publicar isso não nos coloca acima de quem não auditou. A gente achou um erro. Isso significa que existe pelo menos uma categoria de erro que sabemos procurar, não que o resto esteja limpo. Provavelmente tem outros números no site que ninguém conferiu, e a única forma de saber é continuar procurando.
Auditoria não é selo que se ganha. É coisa que se faz de novo.
Pergunta de auditoria
O motivo de contar isso com número, em vez de contar em geral, é simples: a versão vaga não serve de nada. “Identificamos inconsistências e aprimoramos nosso processo” não ensina ninguém e não custa nada dizer.
7 minutos declarados, 1 minuto real, 30 posts corrigidos, um bug no próprio medidor, um script no repositório — isso dá pra verificar.
Se a gente escreve sobre auditar os outros, o mínimo é mostrar a nossa aberta.
Veredito Uzz.Ai: adotar
Quem precisa olhar isso: quem tem preço, prazo ou horário publicado há mais de seis meses. Comece pelo número que mais dói se estiver errado.
Quer saber quais números do seu site estão desatualizados?
A gente roda a mesma auditoria no seu site e te devolve a lista do que está no ar sem conferência.
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